Um analista de compras pede a uma ferramenta de IA um resumo de contratos de fornecedores e cola no chat as planilhas com preços negociados. Um agrônomo recebe uma recomendação de manejo gerada por IA e a repassa ao campo sem conferir a dose. Na controladoria, um relatório com um número errado chega à diretoria porque ninguém sabia que o modelo podia inventar um valor plausível.
Nenhuma dessas pessoas agiu de má-fé. Faltava a elas saber como a ferramenta funciona, onde ela erra e quais dados podem entrar nela, que é justamente o que um programa de letramento em IA ensina. Para a diretoria, cada episódio tem um custo: informação estratégica fora do controle da empresa, decisão tomada sobre um número errado e licenças pagas que pouca gente sabe usar bem.
Neste guia, explicamos o que é letramento em IA, onde estão os riscos para a empresa, o que cabe a cada executivo e como implantar um programa em cinco etapas, adaptado a cada público.
Para quem decide, em cinco pontos:
- Seus colaboradores provavelmente já usam IA, com ou sem autorização. No estudo global da KPMG, 58% usam IA no trabalho e só 47% receberam algum treinamento.
- O risco maior está nos dados. Quase metade dos funcionários admitiu usar IA contra as regras da empresa, inclusive colocando informações sensíveis em ferramentas públicas, e a LGPD prevê multa de até 2% do faturamento no Brasil, limitada a R$ 50 milhões por infração.
- O ganho de produtividade das licenças de IA depende de as pessoas saberem usar, conferir o resultado e decidir quando não usar. Sem isso, a licença é custo.
- O programa precisa de dono na diretoria. O RH conduz a formação, e CFO, CIO e jurídico definem regras, ferramentas e limites.
- Dá para começar em poucas semanas, com um diagnóstico do uso atual e uma política de uso de poucas páginas.
Sumário
- O que é letramento em IA
- Letramento em dados e letramento em IA
- Por que o tema virou prioridade
- LGPD e regulação: onde está o risco para a empresa
- Sinais de que sua empresa precisa de um programa de letramento em IA
- O que cada público precisa saber
- O que cabe a cada executivo
- Como implantar um programa de letramento em IA em 5 etapas
- Como medir se o programa está funcionando
- Letramento em IA no agro e na indústria de alimentos
- Erros comuns
- Perguntas frequentes
- Como a RISTI trabalha o letramento em IA
- Conclusão
O que é letramento em IA
O AI Act, regulamento europeu de inteligência artificial, define letramento em IA (AI literacy) como as competências, os conhecimentos e a compreensão que permitem usar sistemas de IA de forma informada e ter consciência das oportunidades, dos riscos e dos danos que eles podem causar.
O referencial de letramento em IA publicado pela OCDE e pela Comissão Europeia em 2026, voltado à educação, vai na mesma direção: um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes para entender como os sistemas de IA funcionam, avaliar criticamente seus resultados e usá-los de forma ética e criativa.
Na empresa, isso se traduz em quatro capacidades práticas:
- Entender o que a IA faz e o que não faz: como um modelo gera respostas, por que ele pode errar com confiança e por que a mesma pergunta pode ter respostas diferentes.
- Usar com método: escrever boas instruções, dar contexto, escolher a ferramenta aprovada para cada tarefa e reconhecer quando a IA não é a ferramenta certa.
- Avaliar o resultado: conferir números, fontes e premissas antes de decidir ou repassar.
- Proteger dados e decisões: saber quais informações podem ser inseridas em cada ferramenta, o que diz a LGPD e quem responde pelo resultado.
Letramento em IA também tem limites claros. Ele não exige que todos aprendam a programar ou a treinar modelos. Um diretor, um operador de manutenção e um cientista de dados precisam de níveis diferentes de conhecimento, e um bom programa respeita essas diferenças.
Letramento em dados e letramento em IA
O Gartner define letramento em dados (data literacy) como a capacidade de ler, escrever e comunicar dados em contexto, com compreensão das fontes, dos métodos analíticos e das técnicas de IA. A definição já inclui a IA, por um motivo prático.
Toda resposta de IA sobre o negócio depende de dados. Se o colaborador não sabe de onde vem o indicador, qual é a fórmula oficial e qual sistema é a fonte da verdade, ele também não consegue avaliar se a resposta da IA faz sentido. Por isso, o letramento em IA funciona melhor quando se apoia em uma governança de dados que define donos, conceitos e regras de qualidade.
Na pesquisa do Gartner com Chief Data and Analytics Officers em 2024, 83% disseram ter um programa de letramento em dados em andamento ou planejado para os 12 meses seguintes. A falta de letramento em dados apareceu entre os cinco principais obstáculos ao sucesso das áreas de dados e analytics.
Por que o tema virou prioridade
O uso de IA nas empresas cresceu mais rápido do que a preparação das pessoas para usá-la.
- O estudo global da KPMG com a Universidade de Melbourne, com 48 mil pessoas em 47 países, mostrou que 58% dos funcionários usam IA intencionalmente no trabalho, mas só 47% disseram ter recebido algum treinamento. Dois terços (66%) confiam no resultado sem avaliar se está correto, 56% já cometeram erros no trabalho por causa da IA e 57% escondem o uso. Quase metade admitiu usar IA de formas que contrariam as políticas da empresa, como carregar informações sensíveis em ferramentas públicas gratuitas.
- No Brasil, o mesmo estudo apontou que 86% dos trabalhadores usam IA nas empresas. O EY Sentiment Index, publicado em maio de 2026, registrou que 95% dos brasileiros entrevistados já usam IA, e só 47% disseram ter treinamento ou formação relevante.
- Uma pesquisa da Pluxee divulgada em outubro de 2026, com 9.600 trabalhadores em 14 países, mil deles brasileiros, encontrou um quadro mais duro: apenas 15% afirmaram ter recebido treinamento formal oferecido pela empresa.
As pesquisas usam metodologias diferentes e os números não devem ser comparados entre si. Todas, porém, apontam a mesma distância entre uso e preparo. Essa distância aparece na operação como vazamento de dados, decisão tomada sobre resposta errada e retrabalho para corrigir o que a IA produziu.
LGPD e regulação: onde está o risco para a empresa
Para uma empresa brasileira, o risco jurídico mais imediato do uso despreparado de IA está na LGPD. Quando um colaborador coloca dados de clientes, produtores ou funcionários em uma ferramenta sem controle, a empresa pode ter de responder por isso. A lei exige medidas técnicas e administrativas de segurança para proteger dados pessoais contra acesso não autorizado e tratamento inadequado (art. 46), obriga a reparar danos causados no tratamento de dados (art. 42) e prevê sanções que incluem multa de até 2% do faturamento no Brasil, limitada a R$ 50 milhões por infração (art. 52).
Política de uso, ferramentas aprovadas e pessoas preparadas são medidas administrativas que a empresa consegue demonstrar se for questionada. Contratos, preços e dados financeiros, mesmo quando não envolvem dados pessoais, também não podem circular em ferramentas que a empresa não controla.
Na Europa, o AI Act transformou o letramento em IA em obrigação legal a partir de fevereiro de 2025. Desde julho de 2026, com o Regulamento (UE) 2026/1744 (Digital Omnibus), as empresas precisam adotar medidas para apoiar o letramento dos colaboradores, sem garantir um nível específico de cada pessoa, e quem usa sistemas de alto risco continua obrigado a treinar os responsáveis pela supervisão humana. A regra só se aplica diretamente a quem oferece ou usa IA na União Europeia, mas indica o que um programa precisa ter: medidas proporcionais ao risco, conteúdo por perfil e registro do que foi feito.
Sinais de que sua empresa precisa de um programa de letramento em IA
- Colaboradores usam ferramentas de IA pessoais ou gratuitas com dados da empresa.
- Não existe uma política que diga quais ferramentas estão aprovadas e quais dados podem ser usados em cada uma.
- Respostas geradas por IA chegam a clientes, relatórios ou decisões sem revisão.
- A empresa comprou licenças de IA e o uso ficou concentrado em poucas pessoas.
- Os gestores não sabem dizer quais tarefas da sua área já usam IA.
- Os treinamentos que existem ensinam a usar uma ferramenta específica, mas não ensinam a avaliar o resultado.
- Ninguém sabe a quem recorrer quando a IA dá uma resposta suspeita.
Se três ou mais itens descrevem sua empresa, o risco já está na operação, e cada mês sem orientação aumenta a quantidade de hábitos que depois precisarão ser corrigidos.
O que cada público precisa saber
O erro mais comum é aplicar o mesmo curso para todos. O conteúdo deve variar conforme o papel de cada pessoa e o risco das decisões que ela toma.
| Público | O que precisa saber | Exemplo no dia a dia |
|---|---|---|
| Todos os colaboradores | Como a IA gera respostas, limites, política de uso e proteção de dados | Saber que uma planilha de clientes não pode ir para uma ferramenta pública |
| Gestores e donos de processo | Onde a IA ajuda na área, como revisar resultados e quem responde por eles | Definir que toda análise gerada por IA para a diretoria passa por conferência |
| Usuários avançados | Técnicas de instrução, automações, agentes e validação sistemática | Montar um agente que consulta indicadores e registrar como ele foi testado |
| Diretoria e conselho | Riscos, oportunidades, investimento, regulação e indicadores de adoção | Aprovar a política de uso e acompanhar o retorno das iniciativas |
| TI, dados e segurança | Arquitetura, integração, monitoramento, privacidade e ciclo de vida dos modelos | Liberar ferramentas com controle de acesso e registro de uso |
O que cabe a cada executivo
Letramento em IA costuma ser entregue ao RH como mais um treinamento. Funciona melhor quando cada executivo assume a parte que lhe cabe:
| Executivo | Responsabilidade no programa | Pergunta que deve conseguir responder |
|---|---|---|
| CEO e diretoria | Patrocinar o programa e cobrar resultado | Quanto a empresa ganha e quanto arrisca com o uso atual de IA? |
| CFO | Controlar o gasto com IA, exigir conferência de números gerados por IA e acompanhar o retorno | Quais licenças são de fato usadas e quais números do fechamento passaram por IA? |
| CIO ou responsável por TI | Definir ferramentas aprovadas, controlar acesso e monitorar o uso | Que ferramentas de IA os colaboradores usam hoje, aprovadas ou não? |
| RH | Montar as trilhas por público e acompanhar a cobertura | Quem já foi preparado e quem ainda usa IA sem orientação? |
| Jurídico e compliance | Escrever a política de uso e alinhar com a LGPD e os contratos | Que dados nunca podem entrar em uma ferramenta de IA? |
Como implantar um programa de letramento em IA em 5 etapas
Etapa 1: diagnóstico
Comece pelo inventário: quais ferramentas são usadas, por quem, para quais tarefas e com quais dados. Uma pesquisa curta com os colaboradores e uma conversa com cada gestor costumam revelar mais do que o esperado, incluindo o uso de ferramentas não aprovadas. O diagnóstico também mede o nível atual de conhecimento por público.
Etapa 2: política de uso e ferramentas aprovadas
Antes de treinar, defina as regras. A política de uso aceitável deve caber em poucas páginas e responder a perguntas objetivas: quais ferramentas estão liberadas, quais dados podem ser usados em cada uma, quando a revisão humana é obrigatória e a quem recorrer em caso de dúvida. Proibir sem oferecer uma alternativa aprovada só empurra o uso para fora do controle da empresa.
Etapa 3: trilhas por público, com casos reais
Monte trilhas diferentes para cada público da tabela acima. Use exemplos da própria operação: o relatório de fechamento da controladoria, a ordem de manutenção, a proposta comercial. Exemplos genéricos ensinam a ferramenta, mas os da própria operação mostram onde ela ajuda e onde erra no trabalho de cada um.
Etapa 4: prática supervisionada e multiplicadores
Conhecimento sobre IA se consolida com uso. Escolha um ou dois casos por área, acompanhe a aplicação por algumas semanas e forme multiplicadores, pessoas de cada área que tiram dúvidas e trazem os problemas para o grupo responsável. Os multiplicadores reduzem a dependência da equipe central e aceleram a adoção.
Etapa 5: medição e atualização
Registre quem foi treinado, em qual trilha e quando. Esse registro é o que o AI Act pede como evidência e o que a diretoria vai querer ver. Revise o conteúdo a cada ciclo, porque ferramentas, riscos e regras mudam rápido.
Como medir se o programa está funcionando
Horas de treinamento dizem pouco. Os indicadores que importam mostram mudança de comportamento:
- Cobertura: percentual de colaboradores que concluíram a trilha do seu público.
- Adoção qualificada: uso das ferramentas aprovadas em relação ao total de usuários com acesso.
- Uso fora da política: incidentes de dados inseridos em ferramentas não aprovadas, que devem cair ao longo do tempo.
- Qualidade: erros encontrados na revisão de conteúdos gerados por IA antes de chegarem a clientes ou à diretoria.
- Resultado: tempo economizado ou ganho medido nos casos de uso acompanhados.
Letramento em IA no agro e na indústria de alimentos
No agronegócio, a IA já aparece em recomendações agronômicas, análise de imagens, previsão de safra, manutenção de máquinas, compras e atendimento comercial. Cada uso tem um risco próprio:
- Campo: uma recomendação de manejo gerada por IA precisa ser validada por um agrônomo antes de virar ordem de serviço.
- Indústria e manutenção: o técnico deve entender que um alerta preditivo é uma probabilidade e saber quando escalar.
- Controladoria e finanças: números produzidos por IA precisam ser conferidos contra a fonte oficial antes de ir para o fechamento.
- Comercial e suprimentos: preços, contratos e dados de produtores e clientes não podem entrar em ferramentas sem controle.
- Áreas de apoio: RH e jurídico lidam com dados pessoais e precisam conhecer bem os limites da LGPD.
Em empresas com muitas unidades e equipes no campo, o programa precisa de formatos curtos, acessíveis pelo celular e com exemplos da safra, e não apenas de cursos longos em sala.
Erros comuns
- Tratar letramento como treinamento de ferramenta. Ensinar os botões de um aplicativo não prepara ninguém para avaliar uma resposta errada.
- Aplicar o mesmo conteúdo para todos. O diretor e o operador precisam de conhecimentos diferentes.
- Treinar antes de definir a política. Sem regras claras, o treinamento não tem o que ensinar sobre dados e responsabilidades.
- Proibir sem oferecer alternativa. O uso continua, só que escondido.
- Ignorar os dados. Quem não confia nos dados da empresa não consegue avaliar a resposta da IA sobre eles.
- Fazer uma ação única. Ferramentas e riscos mudam a cada trimestre, e o programa precisa acompanhar.
- Não registrar o que foi feito. Sem registro, a empresa não comprova o esforço nem mede a evolução.
Perguntas frequentes
Letramento em IA é o mesmo que treinamento em IA?
Não. Treinamento costuma ensinar uma ferramenta. Letramento inclui entender como a IA funciona, avaliar resultados, proteger dados e saber quem responde por cada decisão. Um bom programa usa treinamentos, mas também política, prática supervisionada e medição.
Empresas brasileiras precisam cumprir o AI Act?
Apenas as que oferecem ou usam sistemas de IA na União Europeia. Para as demais, o AI Act serve como referência de boas práticas.
Quanto tempo leva para implantar um programa?
O diagnóstico, a política de uso e a primeira trilha para todos os colaboradores podem ficar prontos em poucas semanas. As trilhas por público e a formação de multiplicadores avançam ao longo dos meses seguintes.
Quem deve conduzir o programa na empresa?
Funciona melhor como esforço conjunto, com patrocínio da diretoria: RH conduz a formação, TI define as ferramentas, jurídico escreve a política e o CFO acompanha custo e retorno. Empresas que já têm um Centro de Excelência em IA costumam colocar o letramento entre as responsabilidades dele.
Por onde começar?
Pelo inventário do uso atual e por uma política curta de uso aceitável. Com essas duas peças, a primeira trilha para todos os colaboradores já tem o que ensinar.
Como a RISTI trabalha o letramento em IA
Na RISTI, o letramento em IA faz parte da capacitação prevista na estruturação de um Centro de Excelência em IA. O trabalho começa por um diagnóstico de uso de IA: quais ferramentas estão em uso, por quem, com quais dados e com que nível de conhecimento em cada público. A partir dele, a empresa recebe a política de uso, a definição das ferramentas aprovadas e trilhas de formação montadas com exemplos da própria operação, com indicadores para a diretoria acompanhar.
Conclusão
A IA já está no trabalho das pessoas, com ou sem orientação da empresa. Letramento em IA é o que permite usar essa tecnologia com critério: saber o que ela faz, conferir o que ela entrega e proteger os dados e as decisões do negócio. Começar pelo diagnóstico e pela política de uso, e depois treinar cada público com exemplos da própria operação, é o caminho mais rápido para que o uso espontâneo passe a gerar resultado.
Quer saber como a IA já está sendo usada na sua empresa? Fale com nosso time sobre um diagnóstico de uso de IA. Para avaliar o ponto de partida em dados, responda ao Questionário de Maturidade e Adoção de Dados.
Leia também:
- Governança de dados no agronegócio: guia prático
- Centro de Excelência em IA: como estruturar
- Shadow IT de dados: riscos e como lidar
- Cultura de dados nas empresas
Fontes
- Brasil. Lei nº 13.709/2018 (LGPD), arts. 42, 46 e 52.
- União Europeia. Regulamento (UE) 2024/1689 (AI Act), artigos 3(56) e 4, e Regulamento (UE) 2026/1744 (Digital Omnibus).
- Comissão Europeia. AI Literacy: Questions & Answers. Atualizado em 27 jul. 2026.
- OCDE e Comissão Europeia. Empowering Learners for the Age of AI: An AI Literacy Framework for Primary and Secondary Education. 17 jun. 2026.
- Gartner. Data Literacy: A Guide to Building a Data-Literate Organization.
- KPMG e Universidade de Melbourne. Trust, attitudes and use of artificial intelligence: a global study 2025. Abr. 2025.
- KPMG Brasil. Confiança, atitudes e uso da inteligência artificial. 2025.
- EY. Com 95% já usando IA, Brasil está entre líderes de ranking de adoção. Maio 2026.
- Pluxee. IA avança nas empresas, mas apenas 15% dos trabalhadores recebem treinamento para utilizá-la. 5 out. 2026.

